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A violência urbana, incluindo assaltos a
mão armada, seqüestro e agressões de diversas formas,
tem aumentado bastante no Brasil nos últimos anos. Os
brasileiros tem andado assustados com essa onda. Prova
disso é o aumento crescente do mercado para vidros
resistentes a bala, com o Pais chegando a um patamar de
consumo semelhante ao de países tradicionalmente
violentos. A principal diferença da blindagem consumida
no Brasil, para as utilizadas em diversos outros países,
é que a nacional é feita especificamente para se
combater a violência das ruas. Ou seja, o projeto da
blindagem prevê principalmente resistência as armas de
mão, enquanto que em outros locais o foco principal é
para as blindagens anti- atentados, que costumam
utilizar calibres mais potentes.
A maioria dos fornecedores de tais vidros
informam que é errado denominar os vidros para blindagem
como vidros a prova de balas. Segundo eles, isso cria a
expectativa de que os vidros resistem a qualquer tipo de
calibre, o que não condiz com a realidade.
0 correto, segundo eles, é denominá-los
como vidros resistentes a bala, referindo-se ao fato de
que a blindagem é especificada de acordo com o nível de
proteção desejado. Existem diversos tipos de blindagens
transparentes, mas elas dividem-se em dois grupos
principais. 0 primeiro, mais tradicional, é a utilização
de varias camadas de vidro intercaladas com PVB, também
chamados de laminöes. 0 grau de resistência as balas é
determinado pelo tipo e espessura dos vidros e pela
quantidade de lâminas utilizada. Outro tipo, mais
moderno, é feito com a laminação de vidros e chapas de
policarbonato. Por ser mais fino e leve que os laminoes,
são bastante utilizados nas industrias automobilística e
aeronáutica, embora alguns também o utilizem na
construção civil. Sua performance depende da espessura e
da forma como é feita a combinação dos dois materiais.
Construção
Uma das empresas nacionais que fornecem
vidros resistentes a bala pelo sistema de laminação de
varias camadas de vidro é a Com tempera, que faz sua
laminação com Polivinil Butiral (PVB) liquido, que tem
as mesmas características do PVB em filme. 0 sistema é
manual, mas apresenta a vantagem de preencher eventuais
imperfeições do vidro. Para a proteção de guaritas e de
vitrines onde são expostos objetos de valor, Claudio
Passi, diretor da empresa, recomenda a utilização do
vidro com 30 mm de espessura. "É uma laminação média que
suporta as armas mais utilizadas no Brasil em assaltos,
como o calibre 38, a automática 9 mm e a calibre 12,
cano serrado", explica. Também é resistente a atos de
vandalismo. Segundo o fabricante, em um teste feito em
sua empresa, foram dadas vinte marretadas no vidro antes
que este se quebrasse. Claudio explica que para atender
bem ao mercado é preciso fornecer o serviço completo,
incluindo a instalação em caixilhos especiais ou
diretamente na alvenaria, devido a dificuldade em
manusear o produto, bastante espesso e pesado. Pelo
sistema, ainda é possível laminar-se vidros até a
espessura de 70 mm e utilizar-se vidros que não se
consegue no processo industrial, como os temperados e os
vidros anti-reflexo. 0 vidro resistente a bala com vidro
temperado é utilizado em locais sujeitos a grande
pressão, pois possui maior resistência mecânica e
elasticidade que um vidro comum. Já o anti-reflexo
laminado é utilizado na exposição de peças de arte e
objetos raros.
Automóveis
Na blindagem de locais onde o peso e a
espessura são limitados, são utilizados os compostos de
vidro e policarbonato, unidos por uma camada com
propriedades físicas semelhante ao PVB. Com esse sistema
é possível obter-se vidros com a mesma resistência dos
laminöes, com metade da espessura e peso. Por causa
dessa vantagem, são bastante utilizados na industria
aeronáutica e na proteção de veículos blindados, tanto
nos de transporte de valores quanto nos automóveis
particulares. De olho no crescimento desse mercado, que
já chega a 50 carros blindados por mês no Rio e em São
Paulo, a Blindex prepara-se para inaugurar a primeira
linha de produção industrial do vidro a prova de balas.
Segundo Marcio Flavio, gerente industrial da unidade de
laminados de Caçapava, para a implantação da nova linha
a empresa pretende deslocar uma série de equipamentos já
existentes, minimizando os gastos com a implantação. A
operação vai ser exercida com produção I pela Blindex,
comercializada pela Pilkington Aerospace, que esta sendo
instalada no Pais, e distribuída por varias empresas que
trabalham com sistemas de blindagem para automóveis.
Segundo Marcio, a nova unidade da Blindex pretende
produzir somente vidros resistentes a bala para
automóveis. Para a construção civil, continuarão a
trabalhar com os laminoes, como já vinham fazendo, pois
apesar de o vidro com policarbonato oferecer vantagens
técnicas, é um produto muito mais caro. A empresa não
pretende, por enquanto, fornecer o vidro para trens e
aviões, mas não descarta a possibilidade de fornecer
para esses segmentos, futuramente. "Vamos começar no
Brasil oferecendo o vidro de 18 mm, porque grande parte
dessas munições que são utilizadas em assaltos nas ruas
ela cobre bem, mas podemos aumentar a espessura,
aumentando também o peso e o custo", afirma Marcio. Para
ter-se uma idéia do valor do vidro, o custo de um
conjunto de proteção balística completo, instalado em um
automóvel, é de R$ 40 mil a R$50 mil, dependendo do
modelo, sendo que o vidro representa de R$ 18 mil a R$
20 mil desse custo.
Nível 4
Recentemente a 0'Gara & Eisenhardt,
tradicional empresa americana que atua ha dois anos no
Brasil, passou a oferecer a blindagem de nível 4 aos
seus clientes, que resiste a tiros de diversos tipos de
armas pesadas, utilizados por quadrilhas organizadas.
Ricardo Furlan, gerente industrial da empresa, explica
que o nível 4 de proteção não é disponível para todos os
carros por ser muito pesada. A blindagem total pesa 140
kg. 0 vidro tem 38 mm de espessura e a proteção da
carroceria é feita em puro aço. Por causa disso é
preciso ser instalada em automóveis que possuam maior
porte e motor potente. Tal proteção resiste a disparos
de fuzis AR 15 e AK 47 e suporta até mesmo uma explosão
de granada de mão sob o veiculo. Furlan explica que so
trabalha com vidros importados porque até o momento não
encontrou no pais produtos laminados com policarbonato
nacionais com a qualidade ótica requerida. A empresa
pretende em breve adquirir os vidros da Blindex, produto
que já importava da Pilkington Aerospace inglesa. A
empresa já testou algumas alternativas ao vidro com
policarbonato, mas não aprovou nenhuma delas. "As vezes
usamos vidros mais grossos fora, mais finos dentro, mas
é sempre vidro com policarbonato. Por enquanto não se
encontrou um material capaz de substituir com vantagens
essa formula", explica Furlan, destacando que o
policarbonato torna- se amarelado com o tempo, mas esse
período geralmente demora de cinco a seis anos. "So o
vidro sozinho é que não envelhece. Até pára-brisa
laminado de carro, depois de um certo tempo, vai
amarelar", completa.
Norma
Segundo Alfredo Veloso Dias Cardoso,
gerente comercial da Gepco, empresa nacional que produz
o vidro resistente a bala, o produto produzido no Pais
possui qualidade semelhante ao do vidro importado. "0
ultimo item que conseguimos igualar com o produto
importado foi a qualidade ótica", explica, afirmando que
essa qualidade é comprovada por meio do principal
laboratório balístico do mundo, o H. P. White,
localizado nos Estados Unidos. A Gepco também esta
firmando convênio para manutenção e controle da
qualidade com as entidades nacionais mais conceituadas
do Pais nesse campo, o Centro Tecnológico Aeronáutico
(CTA), em São José dos Campos (SP), e a Marambaia, no
Rio de Janeiro(RJ), pertencente ao exército. Alfredo
explica que existem normas internacionais que determinam
o grau de resistência dos vidros resistentes a bala. "As
normas mais aceitas em todo o mundo são a NIJ - National
Institute of Justice - EUA, 0108.01 e a UL -
Underwriters Laboratories Inc., 752. Elas definem os
níveis de proteção e o calibre que devem suportar nessa
faixa de blindagem", explica. Basicamente, as normas
para testes desse tipo de vidro definem o tamanho de um
triângulo imaginário no vidro e, dentro desse triângulo,
são dados três tiros que o vidro deve suportar sem
deixar passar o projétil. 0 p tamanho do triângulo é
ampliado quando se trata de armas com maiores calibres.
Um detalhe levado em conta por quem
deseja comprar ou utilizar o vidro blindado é que,
quando um vidro resistente a bala é alvejado, não fica
intacto. Ele quebra, trinca e, se a ultima camada
interna for de vidro, ele pode ser perfurado e espirrar
um violento jato de pó de vidro sobre a pessoa que
estiver do lado oposto ao disparo. Se esse jato atingir
os olhos da pessoa pode até causar cegueira. Por esse
motivo, quando o vidro é laminado com policarbonato, a
ultima camada precisa ser de policarbonato para impedir
esse fagulhamento de vidro. Nesse caso, porém, o
policarbonato não deve ficar exposto, pois apesar de ser
resistente aos impactos, não é um material que resiste a
abrasão, como os vidros, e pode ficar riscado com o
tempo. Por esse motivo as empresas especializadas
costumam utilizar a ultima camada de policarbonato
coberta com uma película anti-riscos. |